Manifesto pela Soberania de Dados - II
Um princípio ético para uma sociedade mais justa baseada numa visão soberana dos seus dados

Ilustração do frontispício do livro Leviatã (1651), de Thomas Hobbes, ilustrado por Abraham Bosse. Fonte: Wikimedia Commons, 2022..
I. Introdução: O Contexto da Crise
O mundo contemporâneo é caracterizado por um fluxo incessante de dados, impulsionado pelo avanço tecnológico e pela proliferação de dispositivos digitais interconectados. Esse ambiente hiperconectado cria oportunidades sem precedentes, mas também levanta preocupações significativas relacionadas à privacidade, à segurança e ao controle dos dados. A cada dia que passa, mais dados são coletados, processados e compartilhados por entidades poderosas, governos e grandes corporações. Esse cenário desencadeia uma crise de soberania de dados, em que indivíduos e comunidades perdem o controle sobre sua própria informação, tornando-se meros fornecedores passivos de dados para objetivos muitas vezes opacos, e muitas vezes não alinhados aos interesses individuais. A crescente conscientização pública sobre a importância da privacidade e da segurança dos dados impulsiona esta demanda por maior autodeterminação (MELLO, 2010).
Este manifesto defende a soberania de dados – o direito dos indivíduos e das comunidades de governar seus próprios dados – como princípio fundamental para uma sociedade justa e democrática. Reconhecendo que a capacidade de gerenciar dados pessoais é inerente à autonomia individual e coletiva, este documento explora a natureza da crise de soberania de dados, as soluções propostas e os desafios para a implementação eficaz da soberania de dados.
II. O Problema: O Estado de Exceção Digital
O paradigma atual, centrado na visão dos dados como mercadoria, permite que entidades poderosas colete, analisem e negociem dados sem o consentimento informado dos indivíduos, violando seus direitos e agravando as desigualdades sociais. A intensa utilização de algoritmos e de IA para o processamento de dados exacerba ainda mais esse problema. Este modelo leva à:
Perda de Autonomia: Os indivíduos não exercem o controle efetivo sobre seus dados, que são constantemente usados para fins que eles podem não aprovar, mesmo sem seu conhecimento ou consentimento explícito. A capacidade de decidir como seus dados são utilizados é essencial para a autonomia individual (AGAMBEN, 1995).
Aumento das Desigualdades: A concentração de dados nas mãos de grandes corporações e governos amplia a disparidade de poder, gerando desigualdades e injustiças. A concentração de informações cria vantagens para os que as detêm, enquanto os que não as possuem ficam em desvantagem (CASTELLS, 1999).
Erosão da Privacidade: A vigilância e o monitoramento constantes online prejudicam a privacidade pessoal, levando a manipulação e ao controle. A capacidade de manter a privacidade é essencial para a autonomia individual (FOUCAULT, 1987).
Amnésia Histórica: A destruição ou alteração sistemática de dados prejudica a capacidade de compreensão e aprendizado do passado, potencialmente resultando em injustiças e na repetição de erros anteriores. O registro e a preservação da história através de documentos são fundamentais para a memória coletiva e para a justiça.
A destruição sistemática de documentos históricos, como ocorreu na Alemanha Nazista, ilustra os riscos potenciais de não se garantir a integridade das informações. A falta de transparência e de mecanismos de responsabilização permite que os poderosos usem os dados para seus próprios fins, muitas vezes sem o conhecimento ou o consentimento dos indivíduos.
III. A Solução: Soberania de Dados como Direito Fundamental
Este manifesto propõe a soberania de dados como um direito fundamental, assegurando aos indivíduos e comunidades o controle sobre seus dados pessoais. Esse direito requer:
Consentimento Informado: Total transparência sobre como os dados são coletados, usados e compartilhados. Os indivíduos devem ter o poder de consentir ou recusar a utilização de seus dados.
Controle de Dados: Os indivíduos e as comunidades devem possuir mecanismos para controlar seus dados, garantindo sua segurança, sua privacidade e sua integridade. Isto inclui o direito de acesso, correção, exclusão e portabilidade de dados.
Governança Democrática: Mecanismos de supervisão pública sobre a forma como os dados são utilizados por atores públicos e privados devem ser implementados. A participação pública é essencial para assegurar a responsabilização e a justiça.
Proteção Contra Manipulação e Preconceito: Os sistemas de dados devem ser projetados e implementados para prevenir a manipulação, o preconceito e as práticas discriminatórias. Isto inclui a solução de problemas de preconceito algorítmico e a garantia de justiça e equidade.
Arquivamento e Preservação Éticos: Os sistemas de arquivamento e preservação de dados devem priorizar as considerações éticas relacionadas aos direitos dos dados. A preservação de dados deve ser executada de forma a respeitar os princípios da soberania de dados.
O processo de arquivamento, desde a sua criação, tem demonstrado a importância da preservação e da memória; reconhecendo que o registro do passado é fundamental para a construção e para a legitimação do presente (RICOUER, 2007). Os documentos, como rastros históricos, são as evidências que permitem escrutínio das ações dos governos e que asseguram sua responsabilização.
A preservação e a disponibilização de informação, sejam através de formatos analógicos ou digitais, são essenciais para a transparência e para a accountability. O acesso à informação deve ser garantido por meio de mecanismos que promovam a transparência e a explicabilidade.
IV. Implementando a Soberania de Dados: Uma Abordagem Multifacetada
Implementar a soberania de dados exige uma abordagem multifacetada e contínua que envolva legislação, inovação tecnológica, ações educativas e cooperação internacional.
Legislação e Regulamentação: Fortalecer as estruturas jurídicas existentes, como a LGPD no Brasil e a GDPR na Europa, é crucial para garantir o consentimento informado, o controle de dados e uma governança de dados responsável. É preciso levar em conta a complexidade do ambiente digital e as nuances da privacidade.
Inovação Tecnológica: Promover o desenvolvimento de tecnologias que promovam a privacidade e sistemas descentralizados para gestão de dados. Soluções como blockchain, aprendizagem federada e privacidade diferencial podem fortalecer a soberania de dados.
Iniciativas Educativas: A educação pública para a conscientização e a compreensão dos direitos e responsabilidades relacionadas aos dados é fundamental. Os cidadãos precisam desenvolver a capacidade de exercerem seus direitos e de analisarem criticamente os sistemas baseados em dados.
Cooperação Internacional: A cooperação global é essencial, pois os dados fluem livremente através das fronteiras. A cooperação entre países e organizações internacionais contribuirá para a definição de padrões comuns e a promoção das melhores práticas.
V. Desafios e Oportunidades
A conquista da soberania de dados enfrenta desafios significativos, incluindo:
Fluxos Transfronteiriços de Dados: A mobilidade livre de dados dificulta a aplicação eficaz de leis e regulamentos nacionais.
Complexidade Tecnológica: A crescente utilização da inteligência artificial e dos algoritmos torna difícil a compreensão e a mitigação de riscos e de vieses.
Desequilíbrio de Poder: Grandes empresas e governos detêm vantagens significativas no ecossistema de dados, dificultando a ação dos indivíduos e das comunidades para a proteção de seus direitos.
Falta de Conscientização: Muitas pessoas não estão cientes de seus direitos e responsabilidades em relação aos dados, dificultando a defesa eficaz da soberania de dados.
No entanto, oportunidades significativas também existem:
Conscientização Pública: A conscientização sobre privacidade e segurança de dados está crescendo, resultando em uma maior demanda por mecanismos de proteção.
Avanços Tecnológicos: Novas tecnologias para melhorar a privacidade e o controle de dados estão surgindo e evoluindo.
Cooperação Internacional: A cooperação entre países está aumentando, o que contribui para o desenvolvimento de padrões e de regulamentos globais para proteção de dados.
VI. Conclusão: O Caminho para a Justiça Digital
A soberania de dados não é apenas um desafio tecnológico ou legal, é um princípio ético e político fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, equitativa e democrática. A sua conquista requer um esforço colaborativo entre governos, empresas privadas, sociedade civil e indivíduos. Ao abraçar a soberania de dados, podemos criar um futuro em que os dados fortaleçam, em vez de enfraquecerem, indivíduos e comunidades. A crescente conscientização pública sobre os riscos da manipulação de dados e o desenvolvimento de novas tecnologias que garantam a privacidade e o controle individualizado são fatores essenciais para esse processo. A proteção da memória e a capacidade de reconstruir a história através de documentos autênticos e confiáveis contribuem para uma sociedade mais justa e responsável. É preciso um novo pacto social e um conjunto de novas práticas para enfrentar as questões éticas e legais da era digital, visando a uma sociedade mais justa e equitativa.
Nota técnica
O texto resume meus argumentos a partir da obra ainda em elaboração Soberania de Dados. Alguns textos preliminares a respeito do assunto já foram publicados e podem ser encontrados aqui;
Referências
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre a política. Rio de Janeiro: N-1 edições, 2015.
BARNES, Susan. A digital intimacy. New York: Oxford University
NICODEMO, Thiago Lima. Soberania de Dados. Manuscrito em fase de publicação.



Este manifesto sobre a soberania de dados é crucial e muito oportuno; qual você considera ser o maior obstáculo político ou regulatório para a implementação total dessas propostas no Brasil? Cordialmente <a href="https://jakarta.telkomuniversity.ac.id/en/latest-technology-sends-earthquake-alerts-directly-to-mobile-phones/">Telkom University Jakarta</a>